1789, livro de Pedro Doria. Tiradentes e a verdade sobre a Inconfidência Mineira.

A história que se contava sobre a Inconfidência Mineira é que ela foi motivada apenas com a finalidade de sonegar impostos cobrados pela Metrópole Portuguesa e que o grupo acusado de traição ao Rei era composto de contrabandistas de ouro e pedras preciosas, Tiradentes e alguns poetas.

Na realidade o movimento foi “enforcado” porque se tratava de algo muito mais perigoso para o Regime. Eram ideias revolucionárias de República e Liberdade.

Eram cabeças pensantes e ilustradas, ideias importadas por muitos que olhavam com simpatia a Independência dos Estados Unidos da América em 1776, não eram apenas dívidas e dinheiro.

Os poderes absolutos que reinavam pelo mundo começavam a dar ideia de exaustão

Não era só a elite mineira que estava envolvida nessa trama, parte da elite carioca e alguns paulistas conspiravam também.

 

1780 Tiradentes foto

 

 Tiradentes segundo alguns historiadores era um homem alto e estava ficando grisalho e com uma tênue cicatriz no rosto. Homem vaidoso, cuidava bem de sua aparência, mantinha seu bigode bem aparado e mesmo nos seus últimos pertences havia entre seus inseparáveis ferrinhos de tirar dentes, um espelho e duas navalhas. Esse rosto com barba que aparece na maioria das ilustrações de livros, é provavelmente uma maneira poética que a História quis apresentar o seu mártir.

Pobre,ele não era, além da sua casa e sociedade em uma farmácia em Vila Rica, tinha também uma fazenda com 50 quilômetros quadrados na fronteira de Minas com o Estado do Rio. Possuia escravos e gado.

Homem curioso, escrevia e falava bem, embora não tivesse nenhum diploma e nem a sofisticação de “alguns de seus contemporâneos que passaram pelas melhores universidades europeias”, adorava e discutia longamente sobre filosofia política dos movimentos liberais que estavam surgindo. Tinha um grande atributo que era “por e tirar dentes’ e conhecimento de plantas medicinais.

Mais conhecido por Tiradentes, o alferes também tinha outros apelidos como “o República” ou “o Liberdade”.

E falava, falava, falava sem parar sobre todos esses planos sem escolher a quem, pouco mineiro nesse quesito diga-se de passagem. 

Um colega de tropa disse que Tiradentes falava muito rápido, o poeta José Inácio de Alvarenga Peixoto o descreve como “Feio” e de olhar espantado.

“Anda feito corta-vento”, assim  o descrevia o poeta Claudio Manuel da Costa.

Na realidade era o menos discreto de todos os réus envolvidos no processo, mas não existe dúvida quanto à sua inteligência e clareza naquilo que estava fazendo e pensando. Era um apaixonado pela sua ideia de Liberdade, mas não escondia.

 

1780 Tiradentes e Claudio Manuel

 

Joaquim Norberto de Souza, ministro da Fazenda de D.Pedro II e historiador foi o primeiro a tentar revelar os significados da Inconfidência com a “História da conjuração mineira”, no qual ele traz à tona os “Autos da Devassa” que são os documentos originais deixados pelo julgamento.

Como era monarquista, Norberto quis fazer de Tiradentes uma caricatura e o menosprezou com diálogos inventados, características da época, mas por incrível que pareça o personagem ficou muito parecido com o real.

 

1780 autógrafos

 

Os “Autos da Devassa” do historiador e republicano Alexandre José de Melo Morais Filho são os documentos originais da Devassa, que Melo Morais descobriu largados dentro de um saco verde, no prédio do Arquivo Nacional.

Até 1860 essa história era contada de uma forma genérica e sem detalhes. Depois dessa descoberta, todos esses depoimentos em juízo e personagens, ganharam forma e voz: as suas próprias.

Foram publicados em pequena tiragem que circulou durante o Império.

Perdida novamente…até que em “1936, o ministro da Cultura Gustavo Capanema e o historiador Augusto de Lima Júnior fizeram publicar uma edição de três volumes com a benção de Getúlio Vargas”.

 

1780 getúlio e lima

 

Faço aqui uma pausa para registrar um fato histórico  vivido na centenária Fazenda de São Matheus em Minas Gerais, fazenda essa que na época era de nossa família e ainda o foi por muito tempo. Eu conheci essa belíssima fazenda, embora tenha sido a  “Fortaleza de Sant’Anna” a fazenda que nos coube diretamente após a morte de minha tataravó Maria Luiza. Tudo era Tostes… tanto fazia. Éramos todos primos e com os mesmos tataravós e histórias. (Muitas…. eu ainda vou contar )

O presidente Getúlio Vargas em uma de suas visitas a Minas Gerais ficou hospedado em São Matheus, na época o meu tataravô Cândido Tostes já havia falecido e estavam lá minha tataravó Maria Luiza de Rezende Tostes, meus bisavós, meus tios bisavós, primos e convidados

O historiador Augusto de Lima Júnior, grande amigo de meu bisavô João de Rezende Tostes, estava também como convidado e deu a ideia do Decreto do repatriamento dos restos mortais dos Inconfidentes a Getúlio e do que fez de Ouro Preto “Cidade Monumento Nacional”.

 

1780 São Matheus a fazenda

Letra de minha bisavó Mimi (personagem de Pedro Nava)

 

Vou aqui colocar o trecho do livro de Aristoteles Drummond, neto de Lima Júnior, “Minas, 400 anos de História”:

“ Em 1936, Augusto de Lima Júnior conseguiu que Getúlio Vargas assinasse decreto permitindo repatriar os restos mortais dos inconfidentes falecidos no degredo. A carta foi entregue ao estadista em território mineiro, na fazenda do Deputado João Tostes, amigo do presidente e do escritor, em Juiz de Fora, que logo mandou chamar o governador Benedito Valadares e o ministro Gustavo Capanema para assistirem ao ato histórico.”

 

1780 fotos parentes

 

No lugar de Vivi Tostes, leia-se Mimi ou Carmen Sylvia Paletta de Rezende Tostes. Do lado esquerdo de minha bisavó Mimi estão Lourdes Tostes (Mascarenhas) e Maria Aparecida Tostes (Cardoso). Ilka de Andrada Tostes, minha avó, citada na reportagem não está nessa foto.

“Em 1955, Lima júnior, terminaria sua tarefa, transferindo os restos mortais de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas para o Museu da Inconfidência, colocando-a enfim ao lado de seu grande amor. E nisso teve o apoio do governador Clovis Salgado e do ministro da Educação, Cândido Mota Filho. O Museu da Inconfidência é o segundo mais visitado do Brasil” (Aristóteles Drummond)

Em tempo… Maria Dorotéia Joaquina de Seixas era uma das “Marílias de Dirceu” (conforme o livro 1789), mas acredito que tenha sido a principal.

 

1780 marilia e Dirceu

 

Marília e Dirceu, publicado em “O Amor Infeliz” de Marília e Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga, um dos Inconfidentes.

“As edições dos poemas a Marília de Dirceu esgotavam-se rapidamente; o poeta era festejado não só nos países de língua portuguesa, com também em espanhol, em francês e em italiano. Até na Rússia o poeta nacional Púshkin verteu a Lira IX da segunda parte ( A esta hora, eu procurava os meus amores), provavelmente à vista da tradução francesa das traduções de Gonzaga publicada por Monclave em 1825.” Aristoteles Drummond

Não posso contar todas as histórias como gostaria sobre a vida dos Inconfidentes, não haveria espaço para a riqueza de cada uma delas.

Tomás Antônio Gonzaga foi transferido para Moçambique onde morreu em 9 de abril de 1812 e lá foi enterrado.

 

1780 marilia livro

 

1780 Marília Casa

 

Feita essa digressão, voltemos ao livro “1789 “de Pedro Doria.

A terceira e última edição dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira” foi publicada entre 1976 e 1982. São dez volumes e não apenas reúne os documentos referentes ao julgamento, ou devassa , mas tudo o que os historiadores descobriram sobre desde então em outros arquivos. Um das mais importantes e desconhecidas é a troca da correspondência entre o estudante carioca José Joaquim da Maia e Thomas Jefferson.

Aconselho a leitura do livro de Pedro Dória, vocês vão ver e entender a Inconfidência Mineira sem mitos.

Por essas páginas desfilam todos os Inconfidentes e personalidades da época.

Suas histórias, seus envolvimentos, seus julgamentos e o grito “Liberdade ainda que tardia” se fazem ouvir.

 

1780  tiradentes-supliciado-de-pedro-americo

Tiradentes Esquartejado, 1893, Pedro Américo de Figueiredo e Melo (Pintor Brasileiro, 1843-1905), óleo sobre tela, 270 x 165 cm, Museu Mariano Procópio, Juiz de For a (MG),

 

Pedro Doria é editor-executivo e colunista do jornal O Globo. Foi editor chefe  de conteúdos digitais do Grupo Estado. Esteve entre os fundadores dos sites No. e No Mínimo.

Em seu segundo livro sobre História do Brasil, o jornalista Pedro Doria destrincha a Inconfidência ou Conjuração Mineira, falando sobre seus principais atores políticos.

No dia da Derrama, quando Portugal apertou o cerco sobre a cobrança de impostos do ouro no Brasil, quase estourou a revolução de Tiradentes. O ano era 1789, título do livro sobre o qual Doria conversa um pouco agora.

Por que você decidiu contar a história da Inconfidência Mineira?

Pedro Doria. Eu comecei a escrever sobre História porque queria aprender sobre a História do Brasil. Eu acho que todos nós, brasileiros, trazemos da escola uma deficiência, a gente aprende muito mal a nossa História. Meu primeiro livro [1565] pega os séculos XVI e XVII, e eu queria chegar ao século XVIII. O que tem no século XVIII de mais interessante? O que rende uma boa história e ao mesmo tempo explica alguma coisa sobre o país e ajuda a compreender o Brasil de hoje? Logo no início da pesquisa, ficou muito claro: era a Inconfidência Mineira. Ela é, provavelmente, o ponto-chave do século XVIII na História do Brasil. E foi por isso que eu fui para lá.”

 

E antes que eu me esqueça:

1780 Tiradentes e a Borda

 

….. mas isso é uma outra História.

 

 

 

 

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