A restauração da Igreja Nossa Senhora da Vitória e o resgate da História de Caramuru e família

 

Igreja nossa

Foto de Monica Lima

 

Com a restauração da Igreja  Nossa Senhora da Vitória, ficamos ainda mais próximos de nossa História.

Dividi o artigo em  duas partes; a primeira será sobre a restauração da Igreja da Vitória, que Cristiana Mendonça Mathias vai apresentar com fotos e com um texto de sua autoria, já que ela está particularmente envolvida nesse grande evento.

Na segunda parte abordarei os fatos da vida de  Caramuru, Paraguaçu, Moema e Magdalena, que é  a história da Bahia e também a história de nosso País.

Não vou contar uma só versão porque ela não existe. As fontes são diversas e nem sempre coincidem.

Muitas lendas estão misturadas com os acontecimentos, mas isso também faz parte da origem de muitos fatos históricos conhecidos.

O número de filhos de Diogo e Paraguaçu é uma questão.   A outra seria a existência de Moema e se ela era, de fato,  irmã de Paraguaçu.

Se pelo caminho da leitura desse artigo, vocês se confrontarem com informações diferentes, o motivo já está justificado.

Reuni todas as informações e trago para vocês a História contada por muitos.

 

Igreja Nossa Senhora da Vitória

Após 18 meses em reforma, a Igreja Nossa Senhora da Vitória, situada na Praça Rodrigues Lima, Largo da Vitória, em Salvador, será reaberta no domingo, 25 de janeiro de 2015, com uma missa realizada pelo Arcebispo Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger.

capela antes e depois fachada
Igreja da Vitória, Salvador, Bahia

 

Vejam o depoimento de Cristiana Mendonça Mathias que faz parte  desse lindo projeto:

“O corredor da Vitória, situado numa das partes mais altas da capital da Bahia, é tido como um dos primeiros caminhos de Salvador. A escolha deveu-se à bela e ampla vista, à possibilidade de vigilância constante da chegada de embarcações e ao fácil acesso às praias das cidades alta e baixa. O largo que compõe o bairro de mesmo nome teve origem antes mesmo da fundação da cidade, por Tomé de Souza. Ali foi construída a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, segunda mais antiga do país. Apesar de a concepção original ter sido alterada ao longo dos séculos, a igreja abriga dois túmulos seculares de incalculável valor histórico-cultural. Estão lá os restos mortais de descendentes diretos do primeiro habitante da então capitania, o náufrago português Diogo Álvares Correia, ou Caramuru, e de sua mulher, a índia Catarina Paraguaçu. Uma das inscrições lapidares é datada de 1561. Todavia, a Igreja da Vitória vai além da sua importância material. O templo faz parte da vida dos soteropolitanos, frequentadores habituais das celebrações eucarísticas ali realizadas.
Quando, doze anos atrás, começamos idealizar o edifício Mansão Wildberger, já sabíamos que ele seria um marco não só na cidade, mas em todo o estado da Bahia. As dimensões do terreno proporcionariam um prédio ainda mais imponente e luxuoso do que os existentes na encosta da Vitória. Durante o longo período entre a compra do terreno, a elaboração dos projetos e a emissão das licenças de construção, correu também o processo de tombamento da igreja. A proximidade física entre os imóveis nos fez constatar o estado de degradação do estimado templo e o esforço do padre Luís, pároco local, para manter a dignidade da casa que abriga tantos fieis.
Surgiu assim a ideia de oferecer à cidade uma contrapartida ao esperado Mansão Wildberger. Um TAC – Termo de Acordo e Compromisso foi firmado entre a baiana MRM e a carioca João Fortes, empresas responsáveis pelo projeto, a Prefeitura de Salvador, a Arquidiocese de São Salvador e o Iphan – Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural Nacional, para a recuperação total da Igreja (junto com a demolição dos anexos que lhe descaracterizavam a fachada, destinando àqueles um novo e confortável local), a completa revitalização do Largo da Vitória e a construção de um mirante – única janela para o mar em toda a extensão do Corredor da Vitória — em uma área doada pelo empreendimento à cidade. A MRM e a João Fortes sentem-se orgulhosas em oferecer esse presente a Salvador.” Cristiana Mendonça Mathias

 

capela antes e depois a nave inteira
Nave

 

A igreja foi reformada algumas vezes e em 1910 teve sua fachada reformulada, com a incorporação de elementos de estilo neoclássico. Em sua fachada branca com frontão triangular greco-romano sobre colunas apresentam-se talhas, frisos, guirlandas e festões.

No interior do templo estão imagens barrocas do século XVIII e suas paredes são adornadas com afrescos dos Passos da Paixão. Entre as obras de arte abrigadas pela igreja estão os trabalhos de Joaquim Pereira de Matos Roseira (1789-1885)

 

capela hoje e agora substituição teto

Teto

 

capela antes e depois 2

 

 

capela antes e depois coro

 

capela antes e depois batistério

 

capela antes e agora substituição

 

capela antes e depois nave

 

capela antes e depois o coro inteiro

 

capela antes e agora lindo

 

conclusão

 

Capela kin

Na foto, Cristiana Mendonça Mathias aparece com D. Murilo, o Arcebispo Primaz do Brasil, mostra o trabalho dos restauradores, que retiraram um a um os azulejos para recuperá-los e, devolvê-los ao local de origem.

 

Agora, vamos às histórias da História.

As obras de restauração da Igreja Nossa Senhora da Vitória nos levou a tempos idos, tempos de Caramuru, Paraguaçu, Moema e Magdalena.

Voltamos às origens da Bahia de Todos os Santos.

Além das pinturas antigas que estavam cobertas por tinta branca e agora restauradas, foram encontradas quatro inscrições lapidares na Sacristia da Igreja da Vitória.

 

capela antes e depois  capela antiga

 

A primitiva Igreja da Vitória foi construída no século XVI, em 1534, talvez antes ainda. Para muitos seria a primeira igreja construída em Salvador. Essa datação se refere às inscrições lapidares existentes na sacristia, uma dela se refere ao casamento de Affonso Rodrigues, natural de Óbidos (Portugal), com Magdalena Álvares, filha de Diogo Álvares, o Caramuru, no ano de 1534. Conclui-se que tenha sido o primeiro homem a casar-se na Igreja.

Uma das mais importantes que ficava na base de uma das pilastras foi removida. As outras são pedras de jazigo que foram reunidas na sacristia, por ocasião das obras de reedificação do templo em 1809.

 

capela antes e depois túmulo 1512

 

“Aqui jaz Affonso Rodrigues natural de Óbidos, o primeiro homem que casou nesta igreja, no ano de 1534, com Magdalena Álvares, filha de Diogo Álvares Correa, primeiro povoador desta capitania. Faleceu o dito Affonso Rodrigues, no ano de 1561. Para os juízes do Santíssimo Sacramento da Victória”

 

capela antes e depois túmulo 1612

 

“Sepultura do capitão Francisco de Barros, fundador desta capela e igreja e de seus herdeiros. Faleceu a 19 de novembro de 1621 A”

 

capela antes e agora lápides Cristiana

 

“Aqui jaz João Marante, natural de Coimbra, que casou com Isabel Rodrigues, neta de Diogo Álvares Correa, primeiro povoador desta capitania; esta sepultura pertence aos seus herdeiros e aos tesoureiros e escrivães do Santíssimo Sacramento, 1809”.
A inscrição que se encontrava primitivamente na fachada, é, evidentemente, de 1809, e foi feita para comemorar a data da última reedificação e restituir ao templo o prestígio de ser um dos mais antigos da cidade, de acordo com a tradição ou lenda.

 

capela antes e depois novidadissima para o artigo

 

É a seguinte a íntegra de sua inscrição, traduzidas as abreviaturas: “Esta igreja de N. S. da Vitória foi edificada no descobrimento da Bahia, foi erecta em parochia em 1552 pelo 1º Bispo D. Pero Fernandez Sardinha, foi edificada por João Correa de Britto e seu irmão Manoel de Figueiredo, acabou a reedificação seu sobrinho e herdeiro, cavalheiro de S. Bento de Avis, e capitão de mar e Guerra do Galião N. S. do Pópulo em 10 de junho de 1666.

Em 1809 segunda vez reedificada pela Confraria do Santíssimo Sacramento e Benfeitores. Deu S. A. R. para esse fim três mil cruzados, quando esteve na Bahia em fevereiro de 1809”. As três inscrições sepulcrais foram reformadas na mesma época, pois apresentam caracteres não muito antigos e da mesma feição nas três lápides, uma das quais está datada de 1809. A de Francisco de Barros apresenta vestígios de uma inscrição mais antiga que não foi totalmente apagada e que poderia ser a primitiva.

 

capela antes e depois Acima, a Igreja da Vitória vista da Barra, em 1835

Fragmento de uma ilustração do artista britânico Gore Ouseley que esteve na Bahia em 1835. No alto está representada a Igreja da Vitória, vista de um ponto próximo da Igreja de Santo Antônio da Barra, vendo-se parte do Cemitério Inglês e da Ladeira da Barra.

 

capela antes  e depois sec xx

 

Histórico arquitetônico.

Não se sabe, exatamente, a data de construção da primitiva igreja; segundo alguns autores, teria sido anterior à da Graça. Segundo uma placa de 1809, que resume a sua história, já em 1552 teria sido elevada a matriz.

Segundo Teodoro Sampaio, seu fundador é o capitão Francisco de Barros, que foi enterrado na mesma em 1621; 1666 – É novamente reedificada por João Correa de Britto e seu irmão Manuel de Figueiredo, e concluída por seu sobrinho, capitão de Mar e Guerra do Galião N. S. do Pópulo;

1809 – Totalmente reedificada. Tendo para isto contribuído, dentre outros, D. João VI, quando a visitou naquele ano. Sua frente, que era primitivamente voltada para o mar, é invertida. Nesta época as primitivas lápides, estando muito estragadas, teriam sido restauradas ou até mesmo refeitas e reunidas na Sacristia a fim de servirem de testemunho da antiguidade do templo.

1910 – Sofre nova reforma.

Fonte: Cd-room IPAC-BA: Inventário de proteção do acervo cultural da Bahia, Bahia, Secretaria de Cultura e Turismo.”

 

capela antes e depois  Largo da Vitória em 1896
1896

 

“DIOGO ÁLVARES CORREIA nasce em Viana do Castelo (cidade junto à foz do rio Lima, norte de Portugal). Cerca de 1509: O navio em que segue Diogo naufraga frente ao Rio Vermelho, na Bahia de Todos os Santos (Terra de Vera Cruz). Os índios Tupinambás dão-lhe a alcunha de CARAMURU (moreia). 1510: Ao abater uma ave a tiro, Diogo ganha o cognome de FILHO DO TROVÃO.” uma das versões e a mais conhecida.

 

capela antes e depois Diogo Alvares Correia caramuru

 

Viajando para São Vicente por volta de 1510, o fidalgo da Casa Real Diogo Álvares naufragou nas proximidades do rio Vermelho, na baía de Todos os Santos. Seus companheiros foram mortos pelos tupinambás, mas ele conseguiu sobreviver e passou a viver entre os índios, de quem recebeu a alcunha de Caramuru, que significa “moréia”. Conhecedor dos costumes nativos, contribuiu para facilitar o contato entre estes e os primeiros missionários e administradores. No entanto, não foi capaz de impedir a expulsão do primeiro donatário da capitania, Francisco Pereira Coutinho. Casou-se com a índia Paraguaçu, filha de um chefe tupinambá, Taparica. O casal teve quatro filhas, que se casaram com colonos portugueses vindos com Martim Afonso de Sousa, dos quais descendem, entre outras famílias importantes, os Garcia d’Ávila. Quando o primeiro governador-geral, Tomé de Sousa, chegou à Bahia em 1549, Caramuru ainda vivia, assim como durante o governo de Duarte da Costa. Foi sepultado no mosteiro dos jesuítas em Salvador, ao lado da mulher, que ao ser batizada recebe o nome de Catarina.

 

capela antes e depois  outra imagem do casal literatura-colonial-12-Caramuru_Paraguacu

Caramuru passou a vida entre os indígenas da costa do Brasil e ajudou muito no contato entre os primeiros viajantes europeus com os povos nativos do Brasil. A presença de Diogo Álvares Correia no Brasil, com sua inestimável colaboração, foi tão importante para os conquistadores portugueses, que o rei D. João III deu-lhe o título de Cavaleiro da Casa Real.

 

capela antes e agora Anônimo_-_Episódios_da_vida_de_Diogo_Álvares_Correia,_o_Caramuru_(II)
Chegada de Diogo Álvares à Bahia (pintura de anónimo no Mosteiro de São Bento, Salvador, Bahia (Brasil).)

 

Bebendo de outra fonte que me surpreendeu:

“Entre 1509 e 1511, surge em terras baianas um náufrago português, cujo nome era Diogo Álvares Correia, tripulante de um navio supostamente francês. O aparecimento de Diogo Álvares é ainda obscuro e cercado de lendas. O que se sabe é que Diogo Álvares apareceu em um local que os índios Tupinambás denominavam Mairaquiquiig (naufrágio de francês) e ainda hoje é chamado pela corruptela de Mariquita, o trecho do Rio Vermelho que corresponde ao local do aparecimento de Caramuru. Do fato de ter surgido entre as pedras ali existentes, é que os Tupinambás lhe puseram o nome de Caramuru que é o nome de uma moréia, espécie de peixe que vive entre as pedras.

Não passa de lenda a história criada pelo Padre Simão de Vasconcelos, em sua crônica quinhentista da Companhia de Jesus, o episódio do tiro numa ave com espingarda e pólvora salvas do naufrágio, dando origem ao nome com sentido de “homem do fogo” e “filho do trovão”.

Acredita-se que quando aqui chegou ainda jovem, Caramuru era agente comercial dos contrabandistas franceses de pau-brasil e, essa relação fica mais evidente quando Caramuru embarca em um navio francês rumo à França em 1526, levando consigo Paraguaçu que foi batizada com o nome cristão de Catarina no final de julho de 1528 em Saint- Malo na Cathédrale Saint- Vincent de Saragosse de Saint- Malo .

 

capela antes e depois certidão de batismo
Certidão de Batismo

 

Le pénultime jour du moys surdit (Juillet 1528) fut baptisée Katherine du Brézil, et fut compère noble homme Guyon Jamyn, recteur de Saint-Jagu, et commère Katherine des Granches et Françoise Le Gobien, fille de l’aloué de Saint-Malo, et fut baptisée par maitre Lancelot Ruffier, vicaire curé du dit lieu, le dit jour et an que dessus. ― P. Trublet.

“No penúltimo dia do dito mês (julho de 1528) foi batizada Catarina do Brasil, e foi padrinho o nobre senhor Guyon Jamyn, reitor de Saint-Jagu, e madrinha Katherine des Granches, e Françoise Le Gobien, filha do procurador de Saint-Malo, e foi batizada por monsenhor Lancelot Ruffier, vigário do dito lugar, no dia e ano acima”

O livro contendo o registro original de batismo de Paraguaçu, guardado nos arquivos municipais de Saint-Malo, esteve em Salvador, em dezembro de 1999, por época das comemorações dos 450 anos de fundação da Cidade.

Katherine des Granches, a madrinha de Paraguaçu, era esposa de Jacques Cartier, o navegador francês, nascido em Saint-Malo, e um dos primeiros exploradores da América do Norte. Esteve na Bahia em 1527, levando Caramuru e Paraguaçu para a França. Seu nome Catarina foi em homenagem à Katherine des Granches. Sua certidão de batismo foi encontrada no Canadá. Ela se casou com Caramuru logo depois.

 

capela antes e agora A igreja de Saint-Vincent-de-Saragosse, antiga Catedral de Saint-Malo, na Bretanha, onde Paraguaçu foi batizada, em 1528, época em que o monsenhor Lancelot Ruffier era o vigário

A antiga arquitetura da Igreja em 1913, Collection Germain-T.Guerix Succr

15 nome era Diogo Álvares Correia, tripulante d

 

 

Construida entre o século 12 ao 17, em diferentes estilos arquitetônicos. É o principal patrimônio histórico da cidade de Saint Malo.

A primeira igreja foi construída no século 7, mas foi incendiada durante um ataque dos francos.

Foi reconstruída no século 12 e abrigou um antigo monastério beneditino, fundado em 1108. Tornou-se Catedral em 1146, quando o bispado de Aleth foi transferido para Saint-Malo. Deixou de ser Catedral em 1801, quando o bispado foi dividido entre as dioceses de Rennes, Saint-Brieuc e Vannes.

 

capela antes e agora O Sonho de Paraguaçu, tela no acervo da Igreja da Graça, do artista baiano Manoel Lopes Rodrigues, de 1871u

O Sonho de Paraguaçu, tela no acervo da Igreja da Graça, do artista baiano Manoel Lopes Rodrigues, de 1871. Existe uma outra pintura no forro da Igreja atual parecida com esta, mas sem o templo no fundo. Outra tela similar, também do século 19, está na Câmara Municipal de Salvador. Ao fundo, está a Igreja da Vitória, provavelmente, a primeira de Salvador e onde se casaram as filhas de Caramuru, em 1534.

A estreita relação entre a índia Catarina Paraguaçu e a paróquia da Graça teve início em 1.530, quando a esposa de Caramuru teve um sonho onde ela via, numa extensa praia, um navio destroçado com náufragos tremendo de frio e morrendo de fome. Junto aos marinheiros estava uma mulher branca e fascinante, que segurava uma criança no colo. Sabendo do sonho da esposa, Diogo Álvares mandou que a costa fosse explorada. Na primeira tentativa nada foi encontrado, como o sonho persistia, Caramuru insistiu nas buscas e por fim encontrou um grupo de 17 navegantes espanhóis, que garantiram não haver presença feminina naquela embarcação. Na noite que voltou para a família em Vila Velha (local onde estão hoje a Graça e a Vitória), Caramuru soube que a esposa havia sonhado de novo com a senhora. A dama lhe pedia que fosse buscá-la para sua aldeia e para que ela construísse uma casa. Finalmente, Diogo encontrou, numa oca de um índio, uma imagem da Virgem Maria com o menino Jesus nos braços. A imagem havia sido recolhida na praia e hoje adorna o altar-mor da paróquia da Graça.”

Simão de Vasconcellos relata que a imagem foi honrada com o título de Nossa Senhora da Graça, enriquecida de muitas relíquias e indulgências, que então mandou o Sumo Pontífice.

A referida nau castelhana foi provavelmente a Madre de Dios, que naufragou em maio de 1535, próximo à Ilha de Boipeba.

Paraguaçu teve dez filhos, faleceu, em 26 de janeiro de 1589, e foi sepultada na sua Igreja, doada por ela aos beneditinos do Mosteiro de São Bento, em 1586. Até hoje, a Igreja da Graça permanece subordinada ao Mosteiro, que guarda o testamento original de Paraguaçu.

Caramuru e Paraguaçu formaram a primeira família brasileira documentada, a mais antiga raiz genealógica no Brasil. Deles descenderam muitos nobres, incluindo os da Casa da Torre de Garcia d’Ávila.

 

capela túmulode Paraguassu

Esta é a pedra tumular de Diogo Alvares Correa e de Catarina Alvares Paraguassu. Está localizada na Igreja da Graça também em Salvador. Foto de Monique Sandy

 

Moema

Paraguaçu tinha como irmã a lendária Moema, originariamente citada (sem essa relação de parentesco) no poema “Caramuru” de Frei Santa Rita Durão (1781).

Em muitas fontes também consta como esposa de Caramuru.

 

capela antes e depois Moema Moema, 1866 Victor Meireles

Moema, Victor Meireles, 1866. Masp/SP

 

“Caramuru adaptou-se a certos costumes dos tupinambás, porém manteve os seus, em se tratando de vestimenta, habitação e a religião católica. Falava fluentemente a língua nativa, o português e o francês, ao mesmo tempo em que compartilhava muitos usos dos índios na questão da alimentação, a caça, a pesca, diversões e passatempos além da medicina e remédios indígenas. Também não se pode dizer que viveu somente para a índia Catarina, sabe-se que Caramuru mantinha relação de concubinato com outras índias coma as quais teve diversos filhos. Ao todo foram dez os filhos gerados com Catarina e as concubinas O Local onde Diogo Álvares viveu com os índios e sua família ficava onde hoje se localiza o largo da Barra indo em direção à ladeira da Barra Avenida até o bairro da Graça. Essa posse de terra lhe foi confirmada por Francisco Pereira Coutinho, donatário da capitânia da Bahia em 1536”

Diogo assume-se como intermediário entre corsários franceses que pretendem carregar as suas naus com pau-brasil, e os índios Tupinambás. Convence estes a fazer negócio, aceitando como pagamento facões, machados, espelhos e panos.

Quando em 1526 Diogo e Paraguaçu embarcam numa dessas naus, rumo à França, atormentada pelos ciúmes, Moema tenta alcançá-los a nado, mas perde o fôlego e morre afogada.

 

tome de souza chegando na bahia
Tomé de Souza chegando na Bahia

 

A armada de Tomé de Sousa saiu de Lisboa em 01 de fevereiro de 1549 e aportou na Baía de Todos os Santos em 29 de março do mesmo ano. O desembarque de Tomé de Sousa e sua comitiva composta de: um ouvidor, Pêro Borges; o mestre-de-obras Luiz Dias; o tesoureiro de Rendas Gonçalo Pereira; três padres, incluindo o padre Manuel da Nóbrega; soldados; degredados e pessoas destinadas à construção da cidade. O desembarque ocorreu sem incidentes com os  tupinambás graças à Diogo Álvares,O Caramuru e seu Genro que negociaram a paz com os índios.


“Em 1548, dom João III envia o Tomé de Sousa como governador-geral do Brasil, enviando uma carta pedindo ajuda para que o Caramuru criasse as condições para que tudo desse certo com Tomé de Sousa e sua expedição (imagine a fama e a moral do Caramuru até na corte real de Portugal). Tanto é que alguns de seus filhos e um genro receberam o título de cavaleiros (algo equivalente ao “Sir” da Coroa Britânica), por serviços prestados à Coroa Portuguesa.

Obs: Por determinação de Tomé de Sousa foram construídas algumas torres de vigilância estratégicas, uma destas foi a Casa da Torre, no morro da Tatuapara, na Praia do Forte (que existe até hoje).que servia para vigilância do local onde chegam as correntes oceânicas e os barcos que vinham p Salvador passavam por lá. Lá os Netos e bisnetos de Caramuru e Paraguaçu, continuam a ajudar muito à colonização, resistir à invasões Holandesas, lutas contra corsários e revoltas de índios, expansão da pecuária para o nordeste, etc. (Exemplo disso: Estas torres tinham sistema de acendimento de tochas (fachos de luz) para avisar de navios invasores e piratas (Praia do Forte -> Jacuípe-> Vila de Abrantes-> Itapuã->Rio Vermelho->Fortaleza da Barra). Parecendo com um sistema (que realmente existiu em vários povos) que foi retratado no filme O Senhor dos Anéis, usado para alertar à todos rapidamente.” 

 

capela antes e agora selo de Mdalena

 

Magdalena Álvares Rodriguez

 

Filha de Diogo Alvares Correia, o Caramuru, Magdalena foi a 1ª mulher brasileira a saber ler e escrever, segundo atestam Gastão Penalva e Francisco Varnhagen . Muito se empenhou para a libertação do elemento servil do Brasil.

De acordo com relatos históricos, em 1534, Magdalena se casou com o português Affonso Rodriguez na Igreja da Vitória,  segundo Varnhagen, esse casamento foi registrado em uma inscrição gravada na Igreja da Vitória (que está aqui fotografada  dando veracidade ao fato de sua morte e de seu casamento)

Acredita-se que foi seu marido, o responsável pelo ingresso da índia ao mundo das letras.(Gastão Penalva)

Tal como a mãe tornou-se cristã, aproveitando os princípios religiosos  e a escrita dos brancos procurou manifestar-se na defesa de seu povo. Não conseguiu ficar indiferente à escravidão imposta aos indígenas;

Em 26 de março de 1561, Magdalena  escreveu uma carta de próprio punho ao padre Manoel da Nóbrega, sacerdote português, que foi chefe da primeira missão jesuítica à América. A índia pedia que as crianças escravas fossem tratadas com dignidade, sendo assim considerada também pioneira na luta pelos direitos humanos no Brasil.  Oferecia a quantia de 30 peças para o resgate das crianças

Varnhagen transcreve em sua obra “Capitães do Brasil”, as palavras de Magdalena pedindo que …”as crianças que se veem separadas dos pais cativos, sem conhecerem Deus, sem falarem a nossa língua e reduzidas a esqueletos” fossem salvas de maus tratos.

 

Origem

Essa fonte nos diz que Magdalena era filha de  Moema e não de Paraguaçu.
“Magdalena era filha do português Diogo Álvares Correia – mais conhecido como Caramuru – e de uma índia da tribo dos Tupinambás, Moema. Diferente da cultura do homem branco, na indígena, a mulher exercia o papel de companheira. Entre os Tupinambás não deveria haver razão para as diferenças de oportunidades educacionais.”

Homenagem
Em homenagem à Magdalena, em 14 de novembro de 2001, os Correios lançaram um selo que simboliza a luta pela alfabetização da mulher no Brasil. Ao centro da peça aparece uma jovem com características indígenas, segurando uma pena de escrivão – instrumento utilizado para a escrita na época em que a índia viveu.de

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